Para Dom Cláudio Hummes, Lula é católico
Apr 08, 2005
Ao lado do cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Scheid que na véspera dissera que o presidente Lula “é caótico, e não católico” o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes, deu ontem uma opinião bem diferente sobre a religiosidade de Lula.
(oglobo.com.br, 07/04/2005) CIDADE DO VATICANO. “Ele é um homem que se considera católico, que se declarou católico. E tem comungado mais vezes comigo. Eu o considero católico.”
Dom Eusébio que jantava com Dom Cláudio e o cardeal-arcebispo de Brasília, Dom José Freire Falcão, ouviu calado a declaração do cardeal. Sua opinião, por escrito, estava pendurada no quadro de avisos do Colégio Pio Brasileiro, onde os três estão hospedados.
O presidente, segundo a nota do arcebispo do Rio afixada no quadro do colégio, não é “suficientemente católico”. Na véspera, Dom Eusébio criticara as posições de Lula, citando o diálogo do presidente com grupos gays e o fato de seu partido, o PT, ter defendido o aborto.
Para Dom Cláudio, Lula é um “grande pai”
A polêmica sobre o catolicismo de Lula marcou uma divisão entre Dom Eusébio e Dom Cláudio, considerado progressista e citado na imprensa internacional como forte candidato a sucessor de João Paulo II. Ontem, mal desembarcou em Roma, para o funeral do Papa, o arcebispo de São Paulo foi abordado por jornalistas, interessados em saber se ele tinha a mesma opinião de Dom Eusébio sobre Lula.
“O presidente Lula eu conheço desde que ele se fez como líder sindical, depois líder político. Ele é cristão a seu modo, católico a seu modo” disse Dom Cláudio.
O arcebispo de São Paulo se referiu a João Paulo II como “um grande pai, irmão e orientador” e, especialmente “um grande amigo”. Apesar de o Papa ter sido conservador em questões morais, condenando o uso de contraceptivos e o aborto, ele preferiu lembrá-lo como um defensor dos operários.
Dom Cláudio contou que conheceu o Papa em 1978. Os dois conversaram durante 40 minutos sobre vários assuntos, especialmente os movimentos operários. Na época, disse, o movimento sindical já se rebelava contra o regime comunista na Polônia, terra do Papa. E no Brasil começavam “as movimentações no ABC paulista”.
Trecho de nota de Dom Eusébio é omitido no Brasil
Os dois voltaram a se encontrar no Brasil, durante a visita de João Paulo II a São Paulo. Chovia, e Dom Cláudio - na época bispo de Santo André - era o único com guarda-chuva. Ficou o tempo todo ao lado do Pontífice, protegendo-o da chuva. Imagens dos dois juntos rodaram o mundo.
“Depois houve reclamação porque o bispo de Santo André, que era meio subversivo, estava muito em evidência” contou Dom Cláudio referindo-se a ele próprio.
Dom Eusébio divulgou ontem uma nota de esclarecimento sobre suas declarações na véspera. “Faço questão de sublinhar que jamais desrespeitei a autoridade constituída ou legitimamente eleita, muito menos a do nosso presidente da República”, disse.
A nota divulgada na Itália contém um trecho suprimido na versão divulgada no Brasil: “Não me parecia que o assunto do Espírito Santo fosse da alçada do nosso senhor presidente, dado que nas matérias de fé, de moral e de ética da nossa Igreja ele me parecia mais confuso, ambíguo (caótico) do que lídimo, e claro, isto é, não suficientemente católico”, explicou.
O Palácio do Planalto nada comentou oficialmente. Assessores de Lula disseram que as declarações de Dom Eusébio são graves e não condizem com o tom que deveria ser usado por um religioso.